sarocass Escreveu:Para finalizar, é engraçado ver este tal de "cabeca" que só responde ao que lhe convém, e quando sabe que claramente não tem a mínima "razão" não opina ou tenta mudar o rumo da conversa!
Como disse outro utilizador deste forum, estas discussões da internet dão sempre resultados positivos. Como tal e como estou agora na minha hora de almoço, tenho algum tempo para responder e tentar tornar positiva esta discussão. E quando dizes que quero mudar de conversa é verdade! Quero coloca-la de novo no assunto desta thread e não continuar discussões paralelas, qual combate de boxe entre dois intervenientes.
Em primeiro lugar, esqueçam lá a bicicleta. É um meio de transporte que serve para min que faço 5 km diariamente. Sei que não é prático para distâncias maiores. O exemplo do comboio foi infeliz. Eu uso-o ao fim de semana para levar a bicicleta a distâncias maiores, e percebo que deva ser impossível leva-la nas horas de ponta de um dia de semana. Poderemos arrumar o assunto bicicleta e não o usar repetidamente nas respostas?
Em segundo lugar, eu tenho um automóvel. Sei quais são todas as vantagens que ele
me proporciona a min. Dá-
me muito jeito para muitas ocasiões. É-
me muito prático em situações específicas. E eu não quero retirar o direito a ninguém de ter o
seu automóvel, que dá muito jeito a quem
o tem, e que é muito prático para quem
o utiliza.
No entanto também sei que o automóvel tem inúmeras desvantagens, e grande parte delas para o próprio, mas também e especialmente para os outros ou para a sociedade em geral. Além da poluição com geração de CO2, partículas nocivas e perigosas para a saúde pública, também existe o ruído que gera, o espaço urbano que ocupa, o estilo de vida sedentáro que promove, o stress que provoca nas filas de trânsito, os acidentes que causa com danos materiais, humanos e emocionais que acarreta. Nem tudo são rosas no mundo do automóvel.
E a min incomoda-me este encolher de ombros de muitos, que por mais desvantagens que existam, dizem ser um mal necessário pela vantagens que proporciona. Como se fosse uma fatalidade. Como se não se pudesse fazer algo de diferente.
É matematicamente impossível resolver o problema da mobilidade urbana numa zona densa como a Área Metropolitana de Lisboa recorrendo ao uso do automóvel. Não há espaço para acolher (e mesmo para circular) todos os automóveis de todos os seus habitantes. Entram e saem todos os dias em Lisboa cerca de 400 000 automóveis nesta cidade que contando com o que cá estão (cerca de 200 000) competem por cerca de 300 000 lugares de estacionamento (lugares gratuitos, pagos, perques publicos e parques privados) (Fonte: Lisboa o desafio da Mobilidade 2005) Há claramente mais automóveis do que estacionamento disponível e também claramente
muitos automóveis em Lisboa.
O direito à acessibilidade a Lisboa é um direito de todos e por isso mesmo é claro para min que os transportes públicos são um bem de primeira necessidade. É esse o bem de primeira necessidade que deve ser o alvo das reivindicações de todos, de melhores condições, de horários mais alargados, de uma abrangência maior, de uma coordenação entre meios de transporte mais eficaz. É para esse bem de primeira necessidade que se devem canalizar energias, dinheiro, vontade política. É um meio de transporte muito mais eficiente energeticamente, mais seguro, mais escalável e mais apropriado a zonas urbanas densas do que o automóvel.
O automóvel não é um bem de primeira necessidade. E há demasiados em Lisboa. Construir mais autoestradas, providenciar túneis no centro da cidade, fazer parques de estacionamento em fartura ou providenciar lugares de estacionamento gratuitos no centro da cidade, potencia e fomenta o uso deste meio de transporte. É precisamente o contrário que Lisboa precisa. É precisamente o contrário que os seus habitantes necessitam e que os que cá trabalham e estudam também beneficiariam. Uma cidade mais ordenada, mais limpa, menos ruidosa e poluída, menos deserta e insegura de noite, uma cidade onde se possa andar a pé sem ser constantemente incomodado com carros estacionados em cima do passeio.
O automóvel está tão entranhado nas nossas vidas que se torna normal invadir de forma quase imperceptível, todos os espaços que nos rodeiam. E para mim, o caso do IST é fulcral. Não conheço outra faculdade (conheço poucas é certo) onde isto tenha acontecido. Nas outras faculdades (mais recentes e construídas com este paradigma do automóvel em mente) existem parques de estacionamento separados para essa única função: depósito de automóveis particulares. São zonas desinteressantes e funcionais, como qualquer parque de estacionamento o é. Os campus em si, são zonas pedonais, com edifícios, pessoas, zonas verdes. São zonas onde se trabalha, se estuda, se joga, se nada, num espaço acolhedor, inspirador, ordenado.
No IST, como não havia lugar a parque de estacionamento (nunca foi planeado) decidiu-se invadir o seu campus de forma desordenada marcado lugares em cima de passeios, em cima de verde, mesmo em cima do seu edifício central emblemárico. Qualquer espaço livre foi aproveitado para o estacionamento automóvel.
Podem concordar, discordar, achar bem, achar mal, mas é inegável que o IST perdeu e muito com a situação actual do estacionamento no campus. Se é necessário? É essencial? É um direito de quem se desloca de automóvel? A esta altura já perceberam qual a minha opinião acerca disso.
E esta proposta, que não é minha, é bastante moderada em relação ao meu ideial muito mais radical e irrealista (pelo menos a curto prazo) de limitar o estacionamento do IST ao parque subterrâneo de Civil e ao pedaço de alcatrão existente junto à entrada Norte do Campus. Apenas propõe aplicar o mesmo modelo de gestão de cidade que a cidade de Lisboa deseja. Foi a cidade de Lisboa que decidiu acabar com a desordem de estacionamento que existia à uns anos atras, aplicando o modelo da oferta e da procura: quando há mais procura do que oferta, o bem fica mais caro. Com este modelo tenta-se desencorajar o uso do automóvel particular, reduzir os cerca de 400 000 carros que entram em Lisboa.
Os transportes públicos podem e devem ser melhorados. Se devem ser feitos antes de todas estas medidas aqui descritas é onde eu discordo. Os transportes públicos devem ser melhorados ao mesmo tempo que se implementam medidas dissuasoras do transporte individual. É nessa altura que a procura do transporte público aumenta, é nessa altura que faz sentido investir para suprir as necessidades.
Quando se diz que as pessoas naturalmente irão preferir os transportes públicos quando estes forem bons, eu acho piada. E acho piada porque tenho provas anedóticas de pessoas moradoras em Lisboa que se deslocam pra todo o lado de carro apesar de terem um sistema de Metro rápido e fiável, apesar de terem dezenas de autocarros da Carris do mais moderno e confortável que conheço. Desenganem-se todos os que acham que as pessoas mudam os seus hábitos se não houver desincentivos ao uso do meio de transporte habitual. Taxar um estacionamento é um desses desincentivos. Podem não concordar com nada disto, como sei que não concordam, mas esta é a minha visão de cidade. Uma cidade onde desejo viver, trabalhar, passear, e fazer compras. E esta minha visão é muito mais vantajosa para todos os que cá vêm passar mais de oito horas diárias da sua vida. Será difícil mudar mentalidades? Mais do que difícil, eu acho que é uma tarefa inglória e cansativa, e principalmente extremamente emocional, porque sempre que se fala em estacionamento parece que estamos a fazer um ataque pessoal ao modo habitual de fazer e pensar as coisas nesta sociedade automobilizada.
E depois desta exposição toda, tenho a certeza que haverá dezenas de repostas do género: "Isso é tudo muito bonito, mas eu moro longe", ou "Isso é tudo muito bonito, mas é irrealista", ou "Isso é tudo muito bonito mas..."
Cumprimentos
Miguel Cabeça
PS. Não tenho partido nenhum. Não pertenço a nenhuma força política. Sou um simples funcionário público que trabalha no IST e que todos os dias olha para o campus e imagina uma das imagens que o Tiago Veras brihantemente colocou em esquema.